S. Policarpo de Esmirna (69 A.D. -- 155 A.D.)
SÃO POLICARPO DE ESMIRNA (69–155)
Relíquia da mão de S. Policarpo, localizado no
Santo Monastério de Panagia Ambelokiotissa, Nafpaktos, Grécia
Ícone de S. Policarpo
O martírio de S. Policarpo
INTRODUÇÃO
S. Policarpo de Esmirna nasceu no ano de 69 A.D. e morreu martirizado em 155 A.D. Foi Bispo da cidade de Esmirna, mencionada em Apocalipse 2:8-10, sendo a única das sete igrejas ali mencionadas que recebe apenas elogios. Possuía – como era tradicional – uma barba muito grande, como exibem os ícones que o exibem. Dois escritores antigos, Tertuliano (155–210) e S. Irineu de Lião (130–202) mencionam S. Policarpo em seus escritos e atestam que ele foi ordenado Bispo pelas mãos do próprio apóstolo João. Era um homem simples, suave, pacífico, fiel cumpridor dos mandamentos e guardião da tradição dos apóstolos.
S. Policarpo escreveu uma carta à igreja de Filipos, em resposta a um pedido que lhe fizeram para que lhes enviasse as cartas escritas por S. Inácio de Antioquia (35–98/107). Em resposta ao pedido deles, ele enviou as que tinha em mãos e escreveu uma de seu punho. Além disso, Policarpo é mencionado numa carta que S. Irineu de Lião escreveu a um certo Florino, que havia abraçado visões heréticas – esta epístola foi mencionada pelo Bispo Eusébio de Cesaréia, no livro História Eclesiástica –. É marcante a forma como S. Irineu fala de S. Policarpo:
“De tal sorte que posso dizer até o lugar em que o bem-aventurado Policarpo se sentava para dirigir sua palavra, como entrava na matéria e como terminava suas instruções, seu gênero de vida, a forma de seu corpo, as práticas que dirigia à multidão; como contava seu trato com [o apóstolo] João e com os demais que haviam visto o Senhor, e como recordava as palavras deles, e que era o que tinha ouvido deles acerca do Senhor, quer sobre seus milagres, quer sobre sua doutrina (...) Policarpo o relatava de acordo com as Escrituras. Todas estas coisas não só as escutei então diligentemente pela misericórdia de que Deus usou comigo, arquivando-as não precisamente no papel, mas em meu próprio coração; mas sempre, pela graça de Deus, as sigo autenticamente ruminando.”
CARTA AOS FILIPENSES
Nesta carta, como mencionado, S. Policarpo afirma que está lhes enviando as cartas de S. Inácio junto à sua. Alguns pontos da fé estão presentes nesta singela carta: uma delas é a crença de que Jesus desceu ao Hades após sua morte e de que a salvação se dá pela graça:
“(Alegro-me) ainda que a raiz firme de vossa fé, que é anunciada desde os tempos antigos, permanece até agora e frutifica em nosso Senhor Jesus Cristo, que aceitou sair ao encontro da morte pelos nossos pecados, e que Deus ressuscitou, livrando-o das dores do Hades. Sem tê-lo visto, vós acreditais nele, com alegria indizível e gloriosa, que muitos querem conseguir. E vós sabeis que é pela graça que fostes salvos, não pelas obras, mas pela vontade de Deus, por meio de Jesus Cristo.”
Ele anuncia, também, que assim como Jesus ressuscitou dos mortos, aqueles que caminharem em Seus mandamentos, também serão ressuscitados. Menciona o fato de ter conhecido o grande apóstolo Paulo e como seu ensino não podia ser superado:
“De fato, nem eu, nem qualquer outro como eu pode se aproximar da sabedoria do bem-aventurado e glorioso Paulo. Ele, estando entre vós, falando pessoalmente aos homens de então, ensinou com exatidão e força a palavra da verdade e depois de partir, vos escreveu cartas. Se as lerdes atentamente, podereis edificar-vos na fé que vos foi dada.”
Termina a epístola fazendo exortações salutares às esposas e viúvas, e afirma, de forma clara, que Jesus Cristo veio em carne, e que quem nega tal ensino é diabólico e do anticristo. Finaliza exortando a que se reze por todas as pessoas!
MARTÍRIO
Nesta obra – de alguma testemunha ocular –, é relatado o martírio de S. Policarpo, o décimo segundo mártir de um grupo que fez, pelo seu sangue, cessar a perseguição que se dava naquele tempo. Os martírios não eram considerados como uma maldição, mas como um sinal da fidelidade daqueles que por ele passavam. Era mesmo tido por uma honra e os mártires, muitas vezes, iam felizes ao encontro de seu fim. S. Policarpo era um homem de intensa e regular vida de oração, e a ele foi dada uma visão, três dias antes de sua morte, de que forma seria martirizado. Ao ser procurado pelas autoridades, ele não se perturbou:
“Quanto a Policarpo, ele inicialmente não se perturbou ao ouvir isso, mas quis permanecer na cidade. A maioria, porém, o persuadiu a se afastar. Então ele se refugiou numa propriedade pequena, não longe da cidade, e passou o tempo com poucos (companheiros). Noite e dia, ele não fazia senão rezar por todos e por todas as igrejas do mundo, como era seu costume. Rezando, ele teve uma visão, três dias antes de o prenderem: viu seu travesseiro queimado pelo fogo. Voltando-se para os seus companheiros, disse: ‘Devo ser queimado vivo!’”
Um escravo é torturado e confessa onde está Policarpo. E eles vão ao seu encontro. É digno de nota e admiração o fato de que Policarpo recebe as autoridades que irão prendê-lo com grande cortesia, e se preocupa em rezar mesmo nesse momento:
“Chegando pela noite, encontraram-no deitado num pequeno quarto do piso superior. Ele podia ainda fugir daí para outro lugar, mas não quis, e disse: ‘Seja feita a vontade de Deus’. Ouvindo que tinham chegado, ele desceu e conversou com eles, que ficaram espantados com a sua idade veneranda, com a sua calma, e com tanta preocupação por capturar um homem tão velho. Ele imediatamente mandou que lhes dessem de comer e beber à vontade, e pediu que lhe concedessem uma hora para rezar tranquilamente. E lhe concederam. Então ele, de pé, começou a rezar, tão repleto da graça de Deus, que por duas horas ninguém pôde interrompê-lo. Os que o ouviam ficaram espantados, e muitos se arrependeram de ter vindo prender um velho tão santo.”
Policarpo seguia a tradição de se rezar de pé, como vemos acima. Ele é tentado, então, a negar a Cristo e prestar honras a César, mas se recusa não se preocupando com sua idade e com a morte que está por vir. Ao chegar no estádio, uma voz vinda do céu se dirige a ele, e é também ouvida por outros: “Sê forte, Policarpo! Sê homem!”. Frente a mais pedidos para que renegasse a Cristo, ele dá uma resposta notável:
“Eu o sirvo há oitenta e seis anos, e ele não me fez nenhum mal. Como poderia blasfemar o meu rei que me salvou?”
Como Policarpo não se importava com o fato de ser lançado às feras, o procônsul decide que ele será queimado vivo. Refletindo sobre as chamas temporárias dessa fogueira, Policarpo a compara com o fogo eterno, demonstrando o tipo de crença no inferno que possuía:
“Tu me ameaças com um fogo que queima por um momento, e pouco depois se apaga, porque ignoras o fogo do julgamento futuro e do suplício eterno, reservado aos ímpios. Mas por que tardar? Vai, e faze o que queres.”
Ele já era venerado como santo, ainda em vida, e as pessoas queriam tocar-lhe a carne santa:
“Quando a pira ficou pronta, o próprio Policarpo se despiu, desamarrou o cinto, e ele mesmo tirou o calçado. Ele nunca fizera isso antes, porque sempre cada um dos fiéis se apressava a ser o primeiro a tocar-lhe o corpo; mesmo antes do martírio, ele já fora constantemente venerado pela sua santidade de vida.”
Ocorre, então, um milagre, as chamas não consomem sua carne e um aroma de incenso é sentido:
“Quando ele ergueu o seu Amém e terminou sua oração, os homens da pira acenderam o fogo. Grande chama brilhou e nós vimos o prodígio, nós a quem foi dado ver e que fomos preservados para anunciar esses acontecimentos a outros. O fogo fez uma espécie de abóbada, como vela de navio inflada pelo vento, e envolveu como parede o corpo do mártir. Ele estava no meio, não como carne que queima, mas como pão que assa, como ouro ou prata brilhando na fornalha. Sentimos então um perfume semelhante a baforada de incenso ou a outro aroma precioso.”
Os soldados então o acertam com um punhal e é só então que ele morre. Os fiéis buscaram ficar com a carne santa de Policarpo, mas as autoridades não a queriam dar. Por fim, decidiram queimar o corpo dele, e os cristãos conseguiram resgatar seus ossos, e estavam decididos a celebrar o aniversário de seu martírio todos os anos:
“Contudo, o invejoso, o perverso e o mau, o adversário da geração dos justos, vendo a grandeza do seu testemunho e de sua vida irrepreensível desde o início, vendo-o ornado com a coroa da incorruptibilidade e conquistando uma recompensa incontestável, procurou impedir-nos de levar o corpo, embora muitos de nós o desejassem fazer e possuir sua carne santa. [...] o centurião colocou o corpo no meio e o fez queimar, como era costume. Desse modo, pudemos mais tarde recolher seus ossos, mais preciosos do que pedras preciosas e mais valiosos do que o ouro, para colocá-los em lugar conveniente.”



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